O cenário teatral paulistano testemunha um fenômeno raro e potente: a assinatura de uma única diretora ecoando, simultaneamente, em palcos de dimensões e estéticas completamente distintas. Daniela Stirbulov transita com maestria pela precisão rítmica de Jersey Boys, pela memória afetiva e histórica de Tom Jobim, pela exuberância cênica de Ney Matogrosso – Homem com H e pela profundidade trágica de Brokeback Mountain.
Não bastasse a escala monumental dessas produções, ela ainda estende seu olhar minucioso a investigações íntimas e viscerais: a crueza contemporânea do jogo de poder em Oleanna e os dilemas éticos shakespearianos em O Mercador de Veneza — espetáculo laureado com quatro Prêmios CENYM, incluindo o de Melhor Direção. Nesta entrevista exclusiva ao Drama de Honra, Daniela nos conduz pelos bastidores de sua mente criativa, revelando como a escuta atenta, o rigor estético e a sensibilidade feminina moldam o teatro de alta complexidade e dão contornos a uma liderança transformadora na cultura nacional.

Drama de Honra: Daniela, você vive um momento excepcional na cena paulistana, ocupando simultaneamente palcos com O Mercador de Veneza, Jersey Boys, Ney Matogrosso e Oleanna. Como é o processo de imprimir sua visão artística em universos tão distintos, garantindo que cada espetáculo tenha uma identidade única, mas todos carreguem o seu rigor de direção?
Daniela Stirbulov: Todo o meu trabalho se inicia, fundamentalmente, na decodificação e compreensão da essência mais profunda da obra: o que aquele texto representa no tempo presente e o que, visceralmente, desejamos comunicar ao público de hoje. Cada projeto dita suas próprias regras estéticas e dinâmicas.
Jersey Boys exigiu de mim uma precisão cirúrgica no entrelaçamento entre música, ritmo coreográfico e narrativa cronológica. Já o espetáculo sobre Tom Jobim propõe um mergulho que atravessa a memória afetiva coletiva, celebrando um legado musical imensurável. Por sua vez, Ney Matogrosso – Homem com H, em cartaz desde 2022, trouxe o imenso desafio de traduzir a história de um dos maiores e mais performáticos intérpretes da nossa cultura. Paralelamente, conduzir Brokeback Mountain na temporada paulistana me convocou a uma compreensão exata da dimensão do texto, exigindo uma delicadeza e uma profundidade psicológica muito específicas que a obra carrega.
Mais recentemente, a estreia de Oleanna nos concentrou em uma investigação cênica intensa, milimétrica, que exige uma atenção absoluta tanto à palavra pronunciada quanto ao silêncio que a precede, mergulhando nas fissuras e tensões da comunicação humana — uma obra feita para confrontar e provocar. E, finalmente, em O Mercador de Veneza, o mergulho se dá nas estruturas clássicas de Shakespeare para trazer à tona discussões que permanecem tragicamente urgentes, como a justiça, o preconceito e as engrenagens do poder.
No fim das contas, o grande ponto de encontro entre universos tão heterogêneos reside justamente no desenvolvimento do processo e na escolha precisa da linguagem cênica. São esses elementos que vão construir a ponte interpretativa com a plateia, abrindo horizontes para a reflexão e para múltiplas camadas de interpretação.
DH: O Drama de Honra valoriza profundamente o protagonismo da mulher nos processos de criação. Explique para nós em qual função você atuou em cada uma dessas peças citadas e como foi a experiência de liderar equipes e produções de tamanha complexidade. De que maneira a sua sensibilidade feminina molda o ambiente de trabalho e a entrega final que o público consome no palco?
Daniela Stirbulov: Estar à frente da direção dessas grandes engrenagens me ensinou que conduzir equipes de alta performance exige, antes de tudo, clareza absoluta de propósito e uma capacidade aguçada de escuta. Para mim, o exercício da direção é indissociável da percepção das nuances sutis, do acolhimento dos tempos individuais de criação e da construção de ambientes genuinamente férteis para que cada artista alcance sua melhor potência. Muitas vezes, a liderança é interpretada como um exercício de imposição, mas acredito que a verdadeira força — que pode, sim, estar profundamente ligada a uma perspectiva e sensibilidade feminina — reside em criar um espaço seguro e colaborativo. Quando o processo de bastidores é pautado pelo respeito, pela escuta ativa e pela sensibilidade artística, esse ambiente saudável e vibrante reverbera diretamente na qualidade e na energia que o público testemunha, todas as noites, no palco.

DH: Em Oleanna, você realiza um movimento estético impressionante, migrando dos espetáculos de grande escala para um drama de extrema proximidade e tensão psicológica. Como foi trabalhar a construção da personagem Carol ao lado da Julianna Gerais, garantindo que a força feminina dela transparecesse nesse jogo de poder tão perigoso e ambíguo?
Daniela Stirbulov: Encenar Oleanna é, essencialmente, um ato que exige coragem. É um texto que provoca o espectador, que o inquieta e que se recusa terminantemente a entregar saídas fáceis ou julgamentos maniqueístas. O meu processo de trabalho com a Julianna Gerais partiu, desde o primeiro dia, de uma investigação minuciosa de uma personagem que é intrinsecamente complexa, extremamente lúcida e absolutamente distante de qualquer simplificação ou estereótipo de vítima ou vilã.
Nossa busca constante foi pelas contradições inerentes ao ser humano, sem nunca abrir mão da humanidade profunda da Carol. Em uma encenação com esse nível de proximidade física e psicológica, o silêncio e a escuta mútua entre os atores possuem exatamente o mesmo peso e voltagem da palavra falada. Como se trata de uma peça que discute a linguagem em si e a disputa feroz por narrativas, tudo precisa pulsar em cena com verdade absoluta. Até o menor detalhe, o menor gesto, torna-se um elemento crucial de sobrevivência e poder naquele espaço de cena.
DH: Seja na retextualização clássica de Shakespeare ou no texto contemporâneo e cortante de David Mamet em Oleanna, suas escolhas de repertório tocam invariavelmente em questões de ética, moralidade e justiça. O que mais te atrai nessas histórias que colocam o ser humano e suas falhas morais em xeque diante da plateia?
Daniela Stirbulov: Eu tenho uma convicção muito clara de que o teatro não existe para confirmar certezas absolutas; o seu papel fundamental é gerar perguntas perturbadoras. Sinto-me visceralmente atraída por textos que desafiam o espectador de forma ativa, que o provocam a rever suas próprias posições preestabelecidas e a refletir criticamente sobre as estruturas do mundo em que vivemos hoje. Tanto Shakespeare quanto David Mamet escrevem, cada um a seu tempo e estilo, sobre as anatomias do desejo, a violência velada e as assimetrias das estruturas de poder. São temas universais e arquetípicos que permanecem dolorosamente vivos e atuais. Quando as luzes da plateia se acendem e vejo que o público deixa o teatro debatendo calorosamente, dividindo opiniões e questionando o que acabou de presenciar, tenho a certeza de que algo essencial e transformador aconteceu através da arte.


DH :A recente indicação e a consagração no Prêmio CENYM reafirmam sua posição de absoluto destaque na vanguarda da direção teatral brasileira. Olhando para o panorama cultural e para o ecossistema teatral de São Paulo hoje, qual legado você acredita que está construindo para as futuras diretoras que buscam trilhar esse caminho?
Daniela Stirbulov: O reconhecimento público e as premiações são de extrema importância, funcionando como um combustível e um forte incentivo para a continuidade do nosso fazer artístico. Ver O Mercador de Veneza ser agraciado com quatro Prêmios CENYM — incluindo as honrarias de Melhor Direção e Melhor Montagem — é um resultado que me enche de orgulho, pois chancela e reforça a potência criativa de toda a equipe que esteve comigo nessa jornada.
Mas, para além dos troféus, o legado mais urgente que pretendo consolidar diz respeito à ocupação de espaços. Ampliar de forma consistente a presença feminina em postos de liderança criativa e de alta complexidade técnica é algo fundamental e inegociável. Meu desejo profundo é que ver mulheres comandando grandes produções, orçamentos expressivos e elencos robustos deixe de ser uma feliz exceção e se transforme, definitivamente, em uma realidade cotidiana e naturalizada no nosso mercado cultural.
DH: Para encerrarmos, quais são os seus próximos projetos? O que o futuro reserva para a sua assinatura cênica?
Daniela Stirbulov: Por enquanto, o meu foco absoluto está em zelar pela excelência dos espetáculos que estão em cartaz, seguindo com dedicação e atenção total a cada uma das temporadas e turnês em andamento. Manter obras dessa magnitude vivas e pulsantes exige uma manutenção artística contínua. Paralelamente, mantenho-me com o olhar atento e a mente aberta para as próximas propostas, textos e encontros que sei que surgirão, integrando novos projetos no tempo certo e orgânico da criação.



Gostou do que leu? Então vem com a gente! Siga o Drama de Honra no X, TikTok e Instagram para mais conteúdos que empoderam, informam e inspiram! 📲✨



