A jornada de um símbolo que atravessa gerações: Mara Carvalho discute autonomia, o peso da ditadura estética e a urgência de ocuparmos os palcos com a nossa própria essência.
O palco paulistano se transforma em um relicário de memórias com a chegada de Susi – O Musical, uma obra que desafia a hegemonia dos espetáculos estrangeiros para celebrar a identidade nacional. O resgate desse ícone carrega uma curiosidade que é, por si só, um manifesto: quando a boneca Barbie chegou ao Brasil, a Susi interrompeu sua trajetória, ficando 12 anos sem ser produzida. Esse hiato de mais de uma década não foi apenas comercial; foi o reflexo do domínio do “externo” sobre o que é genuinamente nosso.
Nesta conversa exclusiva para o Drama Talks, a roteirista e atriz Mara Carvalho reflete sobre como um brinquedo tátil pode ser o veículo para uma lição profunda sobre nacionalidade e criação autoral em pleno 2026. Com a sofisticação de quem domina o ofício, ela detalha o processo de humanização da boneca e a urgência de ocuparmos os palcos com a nossa própria essência, provando que o passado tem muito a dizer ao futuro.

DH – Mara, você ocupa um lugar de destaque na criação deste espetáculo. Como você define a sua “assinatura” no roteiro de Susi – O Musical? De que maneira a sua visão estética buscou humanizar um ícone que atravessa gerações?
Mara Carvalho: Para eu conseguir tocar a plateia, eu como roteirista tenho como objetivo tocar a plateia de alguma maneira, ou que ela se divirta, ou que ela leve algum pensamento para casa, ou que ela faça algum questionamento, ou que ela simplesmente tenha ali um momento de entretenimento, alguma coisa ela tem que se mover. Tem que mover, tem que trazer, tem que ter uma conexão entre plateia e palco. E não tem outra maneira de você fazer isso ou trazer com eficiência é quando você humaniza. Então, humanizei Suzi e não foi difícil porque a boneca ela traz esse movimento entre o lúdico e o real, no caso ali, ela é amiga imaginária. E a criança, toda criança que tem um brinquedo tátil, ela faz essa conexão com aquele brinquedo. Ela inventa voz, ela faz perguntas, ela traz as respostas, ela ama, ela se diverte, ela chora junto com a boneca. Eu acho que o brinquedo proporciona isso para a criança. Hoje os brinquedos são frios no sentido de que hoje eles são digitais, então mais ou menos que os jogos, os games, eles pensam por você. Ele pensa pela criança, ele que traz o movimento, ele que traz o som, ele que traz a luz ali, o envolvimento. E os brinquedos táteis têm uma outra relação. Então, onde eu trouxe a Suzi para mim é tentar mexer na emoção da criança, trazer de volta a ideia de humanizar mesmo, desse contato emocional, desse contato racional. Eu acho que a Suzi cumpre bem esse papel e foi o que eu fui buscar, na verdade, para conseguir fazer desse espetáculo um espetáculo emocionante. Quanto à questão estética, fica mais na mão do diretor, que é o Ulisses Cruz, que trouxe aquele colorido, que trouxe aqueles painéis de LED em contraponto com a tecnologia, em contraponto com a boneca que sai de uma caixa que está ali guardada há muito tempo, que nunca mais foi tocada, que nunca mais cumpriu o seu papel como um brinquedo. As pessoas têm saído emocionadas e ela tem tocado várias gerações, não só a criança, como a geração que teve a Suzi e aquela geração que não conheceu a Suzi, porque a Barbie tomou o seu lugar. No momento em que a Barbie chegou no Brasil, a Suzi ficou sem ser fabricada por 12 anos.

…Eu queria fazer algo que fosse essencialmente brasileiro, contasse, fizesse um recorte ali da história, porque a Susi, quando a Barbie veio para o Brasil, ela teve que sair de circulação e tem essa questão ali americana, esse domínio do externo por interno aqui, que tem até uma frase que ela fala: “Vocês acham que tudo que vem de fora é melhor do que que a gente tem aqui?”. E de fato, há muitas coisas que vêm de fora que são melhores do que está aqui, não no âmbito teatral e cultural.
DH – O ambiente de direção e coordenação técnica em musicais ainda é, historicamente, muito masculino. Quais foram os maiores desafios e as maiores vitórias – ao imprimir uma liderança feminina na gestão de uma equipe tão vasta e em uma estrutura de produção tão complexa?
Mara: A pergunta ela é bem complexa, ela tem bastante viés ali para se falar, mas resumindo um pouco, eu como roteirista, autora tanto das músicas quanto do roteiro, eu já desde muito cedo nunca me preocupei com o entorno masculino ou feminino. Todos os projetos que eu pego, eu vou adiante em busca da realização. Independente desse entorno ou âmbito masculino ou feminino, a arte no Brasil é muito complicada, é muito complexa, é muito difícil de conquistar os espaços. A questão da lei, ela é necessária, absolutamente necessária, mas ao mesmo tempo também tem lacunas onde você tem dificuldade de chegar no resultado final de um projeto. Aliás, você chega no resultado final de um projeto, mas realmente final, porque a partir do momento que você coloca uma peça e você não tem subsídios para fazer com que ele tenha uma carreira, normalmente ele termina ali no terceiro mês a partir da lei, acabou o dinheiro da lei e acabou o projeto. E isso para mim é uma das que eu posso chamar de derrotas, no sentido de que é um projeto que deu super certo, que as pessoas estão encantadas com este projeto, mas a bilheteria não sustenta a continuidade desse espetáculo. Infelizmente, acabou o dinheiro do projeto que veio através da lei, a peça também acaba. O musical também vai ter que se tirar de cartaz e acabou. Teve uma curta temporada, embora tenha sido um grande sucesso. E a educação não cria onde deveria ser criado um público que apreciasse a arte, deveria ser criado nas escolas e as escolas não têm subsídios para criar futuros interessados em arte. Então, é um país deficitário nesse sentido e é nesse sentido que eu consigo pensar nas derrotas. Agora, foi extremamente vitorioso, independente do entorno masculino feminino, que isso realmente nunca me afetou, porque todas as vezes que eu fui atrás de um projeto, eu fui atrás sozinha, eu sempre fui uma mulher independente, uma pessoa que busquei a minha independência, não só artística como também financeira. Eu sou uma pessoa de muita luta, de muito equilíbrio e de muita gana para conquistar o meu espaço artístico e é isso que eu faço desde que eu me conheço por gente. Então, eu nunca, embora eu tenha sofrido muitas vezes essa questão do machismo no espaço de trabalho, onde você é ameaçada pela autoridade masculina, mas isso nunca me trouxe vontade de desistir. Nunca abaixou minha autoestima, nunca mexeu com a minha necessidade de entrar com projeto, buscar e vencer. E é isso que eu busco tanto na minha profissão quanto na minha vida pessoal. Então, eu considero um projeto extremamente vitorioso, mesmo com toda a sua complexidade artística e cultural.
- O musical acompanha a trajetória de Victor (Nico Takaki / Arthur Habert), um menino de imaginação fértil hipnotizado pelas telas, que embarca em uma jornada fantástica ao lado da Susi Original, interpretada pela cantora e atriz PRISCILLA (em alternância com Clara Verdier). Sob a direção de Ulysses Cruz e direção musical de Thiago Gimenez, o espetáculo idealizado por Mara Carvalho — que vive a personagem Olga — traz ainda Bruna Guerin como a rival Vênus, acompanhada por um elenco versátil que inclui Ariane Souza (Susi Safari), Luana Tanaka (Susi Fotógrafa), Daniela Dejesus (Susi Jogadora), além de Paulinho Ocanha (Tuti), Rodrigo Moraes (Falcon) e Leandro Melo (Beto), em uma trama que discute identidade e a resistência da cultura brasileira frente ao brilho importado.
DH – Diferente de um roteiro linear, o musical exige um equilíbrio entre texto, música e movimento. Como foi o seu processo de “lapidação” do elenco feminino para que a performance não fosse apenas técnica, mas sim um reflexo das subjetividades propostas pela obra?
Mara : Ulisses junto com a Vanessa que fez a escolha do elenco, eu acho que ele foi feliz na escolha e o mérito está na direção do Ulisses, está na direção do Thiago Gimenez ao lidar com este elenco, está na minha presença junto com o elenco no processo de trabalho, porque eu também estou atuando. Então acho que são pessoas interessadas, comprometidas com o trabalho e ao mesmo tempo elas foram se envolvendo no trabalho e também se apaixonando pelo texto, pelas possibilidades que o texto trazia, pelas mensagens contidas ali. As músicas eu escrevi e ver essas músicas contando também essa história, emocionando junto com não só os diálogos, mas também as músicas. Então foi um processo que não foi fácil. É difícil porque você tem que lidar com várias cabeças, mas acho que o fato de eu estar ali junto, presente com os atores e fizemos algumas leituras de mesa para tentar trazer não só o entendimento, mas a intimidade com texto. Mas por ser um espetáculo autoral e eu estar ali também junto com elas e junto com esse elenco e a direção o tempo inteiro, acho que isto aproximou, porque eu como roteirista, criando essas letras, a gente foi tendo a compreensão desse texto. E depois que estreou, fomos maturando isso. E acho que a gente chegou num lugar muito satisfatório. Eu me divirto e me emociono todos os dias com aquele elenco, aquelas pessoas que estão ali comprometidas e dando o seu melhor. Eu tô muito satisfeita artisticamente e também pessoalmente com o elenco e com esse espetáculo maravilhoso que se tornou Susi o Musical.
DH – Na sua visão, onde a técnica termina e a arte começa? Como você orquestrou os elementos de cenografia e iluminação para que eles servissem como extensões narrativas da jornada da protagonista, e não apenas como adornos visuais?
Mara : Ulisses, que foi o diretor que trouxe esses elementos cenográficos para o espetáculo. Nós conversávamos, mas toda essa parafernália, toda essa dinâmica que o espetáculo tem, quem trouxe foi o Ulisses Cruz, não fui eu. Então acho que quem responderia muito bem essa pergunta seria ele. De qualquer forma, quando você fala de técnica e atuação, eu acho que mesmo a atuação, mesmo toda a emoção, ela é técnica e racional. Agora essa questão dos elementos cênicos, quem teve toda essa ideia, quem trouxe esse conceito para o espetáculo foi o Ulisses. Não fui eu.
DH – Trabalhar com uma figura que remete ao imaginário infantil exige cuidado. Como a sua direção dialoga com as questões atuais de protagonismo e autonomia da mulher, ressignificando esse símbolo para o público de 2026?
Mara : Eu acho que o imaginário da criança é um canteiro muito fértil. Então, trabalhar o imaginário trazendo essa boneca não foi difícil, exige cuidado, exige respeito, para conseguir transformar isso com sensibilidade e com coisas para dizer, com coisas a contar, trazendo esse protagonismo da boneca junto com esse menino que se conecta com essa boneca através das suas necessidades emocionais. Através das perguntas e respostas que ele mesmo se dá ao lidar com aquele brinquedo tátil. Eu acho que o mérito foi isso, foi conseguir trazer essa perguntas e respostas como dentro da cabeça dele mesmo. Então, é um momento que ele se conecta com aquele brinquedo, onde ele se transforma através dos brinquedos e da mãe, porque a mãe vem mexendo com a cabeça dele, com o entendimento dele, com as perguntas dele e a mãe vem trazendo esse lugar onde o menino está passando de uma fase para outra, onde o menino está se redescobrindo. Então, tem esse papel da mãe que vem questionando e aconselhando e aonde ele consegue, quando ele encontra com a Susi, ele consegue trazer para a própria voz as respostas que ele mesmo precisava se dar. Então eu vejo esse encontro dos dois com a necessidade de cada um, tanto a dele de se redescobrir através daquela boneca, através das próprias perguntas e do estímulo que a mãe dá para ele, cobrando, tentando mostrar que o dom é um presente que você precisa desenvolver ou você será uma pessoa às vezes triste, às vezes frustrada. Então, a mãe vai trazendo essa consciência para ele, ele vai fazendo esses questionamentos diante da boneca.
DH – O Drama de Honra valoriza a paixão pela cultura. Para você, qual é o peso político e social de colocar um musical autoral brasileiro nos palcos de São Paulo hoje? Como você define a urgência desse trabalho no atual cenário cultural?
Mara : Confesso que eu não pensei no peso político e social ao colocar um espetáculo autoral em cena. Não foi o meu foco na verdade. Eu queria fazer algo que fosse essencialmente brasileiro, contasse, fizesse um recorte ali da história, porque a Susi, quando a Barbie veio para o Brasil, ela teve que sair de circulação e tem essa questão ali americana, esse domínio do externo por interno aqui, que tem até uma frase que ela fala: “Vocês acham que tudo que vem de fora é melhor do que que a gente tem aqui?”. E de fato, há muitas coisas que vêm de fora que são melhores do que está aqui, não no âmbito teatral e cultural. Mas eu não quero falar de política. Eu não trouxe esse espetáculo para falar de política. Eu acho que todo artista tem muita queixa, acho que o brasileiro tem queixa, mas aí a gente tem queixa em relação a Brasil mesmo. Eu acho que o que fica bem claro na Susi é a essência brasileira. Ela está ali se debatendo também com a Barbie, que é um produto icônico estrangeiro em contrapartida a esse produto brasileiro que também é icônico e que sucumbiu ao aparecimento da Barbie. Então, tem ali uma cortina que você vai descobrindo e tem várias camadas nesse espetáculo que falam de muitas coisas: fala da descoberta desse menino, fala do preconceito, fala da ditadora da beleza, o contraponto entre a tecnologia e os brinquedos. Então, ele tem várias camadas que vão se revelando a cada cena. E hoje tem esse efeito que causa nas pessoas, que muitas vezes eu saio de cena e encontro homens chorando, mulheres chorando, criança me abraçando e também se emocionando com Susi, querendo encontrar essa boneca. Então, acho que a própria resposta do espetáculo responde a essa pergunta: o porquê desta minha escolha de escrever um espetáculo autoral.
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