Atrizes dão vida a memórias e resistências em drama familiar no Sesc.
O grupo Os Satyros prepara a estreia de seu mais novo espetáculo, “Quase Todos”, com dramaturgia de Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez — que também assina a direção. A montagem, que ocupa o palco do Sesc, atravessa quatro décadas da história de uma família brasileira, mergulhando em memórias fragmentadas e nos silêncios que moldam as relações domésticas.
Como é marca registrada do portal, lançamos um olhar atento ao elenco feminino, que desempenha papel vital na construção dessa narrativa sobre identidade e tempo. As personagens femininas são o ponto de ancoragem para os afetos e conflitos que resistem à precariedade e às transformações sociais.
Quem são as personagens?
No centro da trama, Julia Bobrow interpreta Camélia, uma figura que transita pelos desencontros da memória familiar. Ao seu lado, Tai Zatolinni dá vida a Gardênia, trazendo à cena as complexidades das relações entre pais e filhos. Ambas mergulham em papéis que exigem grande densidade para traduzir as violências invisíveis e os pactos de silêncio citados no texto de Cabral e Vázquez.
O núcleo feminino ganha ainda mais camadas com a presença de Márcia Daylin, que interpreta Dona Espera, uma personagem que carrega no nome e na atuação a expectativa e a resiliência. Já Gabi Flores assume múltiplos desafios em cena, interpretando Madrinha Modesta, Dona Ângela Maria e uma das clientes da história, evidenciando a versatilidade necessária para compor esse mosaico de quatro décadas.
A narrativa, que se inicia no ambiente conservador dos anos 1960, é ancorada pela trajetória de Camélia, interpretada por Julia Bobrow. Marcada por uma experiência amorosa traumática e pelo medo paralisante da exposição social devido à perda da virgindade antes do casamento, Camélia escolhe o isolamento afetivo como escudo. Sua vida torna-se um ato de doação silenciosa, dedicada integralmente ao cuidado da casa e dos pais envelhecidos. Em contraste, a irmã vivida por Tai Zatolinni personifica a ambição e a busca pela autonomia. Ela rompe com as origens para construir uma carreira de sucesso em São Paulo como digital influencer e coach. No entanto, sua jornada de autodeterminação enfrenta um revés devastador ao desenvolver um quadro de perda de memória, que a torna totalmente dependente do companheiro, Fausto, seu eterno porto seguro.
No centro da estrutura familiar está a mãe, vivida por Márcia Daylin (Dona Espera). Mulher apaixonada que carrega a dualidade de uma entrega antiga a um grande amor e a realidade dura de um casamento marcado pelo alcoolismo e pela violência. Com artifícios criativos, ela transforma a miséria em um ambiente suportável para os quatro filhos, mantendo um pacto de lealdade ao marido que nunca cogitou abandonar. Ao seu lado, a sustentação emocional vem de Comadre Modesta, personagem de Gabi Flores. Como melhor amiga de Espera, Modesta é a rede de apoio vital que ajuda a família a atravessar os períodos de escassez e os episódios de agressividade doméstica, simbolizando a solidariedade feminina que permite a sobrevivência em contextos de precariedade.
A complexidade feminina na obra também é explorada através da figura da professora Ângela Maria, também interpretada por Gabi Flores. Através dela, o espetáculo expõe as fissuras do sistema educacional e a impotência diante das violências sociais. Ao testemunhar o bullying sofrido por Lírio, o irmão mais novo da família, a professora vê-se paralisada pela incapacidade de intervir, apesar de sentir profundamente a dor da criança. Essa personagem, somada às trajetórias das irmãs e da mãe, completa um mosaico de mulheres que, cada uma à sua maneira, lidam com as imposições, as fugas e os silêncios de um Brasil profundo, revelando que a memória dessas personagens é feita tanto de lutas quanto de renúncias.
Equilíbrio e diversidade
O elenco masculino também é parte fundamental da estrutura da peça. Ivam Cabral vive Lírio, contracenando com Diego Rifer (Jacinto) e Gustavo Ferreira (Seu Calado). O time conta ainda com André Lu, Eduardo Chagas e Thiago Ribeiro, que se desdobram em diversos papéis que tensionam o cotidiano da família.
Fiel à sua trajetória de vanguarda, Os Satyros integram corpos trans e identidades diversas, garantindo que a pluralidade brasileira seja representada com autenticidade. Nos bastidores, o olhar feminino também é estratégico: Elisa Barbosa comanda o figurino e Lea Arafah colabora na criação da trilha sonora e desenho de som, elementos fundamentais para a atmosfera sensorial do espetáculo.
Quase Todos promete ser um rito de passagem tanto para os personagens quanto para o público, reafirmando o compromisso Os Satyros com um teatro que provoca, acolhe e não deixa ninguém invisível.
🗓️19 de março a 12 de abril Quinta, sexta e sábado, 20h Domingos, 18h
📍 Sesc 24 de Maio Rua 24 de Maio, 109
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