Eva Victor entrega uma obra-prima sobre a solidão absoluta de Agnes em meio ao “crime” da normalidade social.
Um dos filmes mais impactantes do ano. SORRY, BABY, distribuído pela Mares e Alpha Filmes, chega com o selo de 97% de aprovação no Rotten Tomatoes e uma coleção de prêmios de peso, como o de melhor roteiro em Sundance. Mas, para além dos números, o que a diretora e protagonista Eva Victor entrega é um “Drama de Honra” moderno e devastador: a luta de uma mulher para manter sua existência legítima quando todos ao redor decidem que sua dor é um inconveniente.
A trama foca em Agnes (Victor). Após um evento trágico, ela se vê em um vácuo. O mundo não para; ele acelera. Amigos, vizinhos e conhecidos continuam suas rotinas, cafés e conversas como se o chão de Agnes não tivesse acabado de sumir. É aqui que entra a crítica social mais contundente do filme: a moralidade da indiferença. A sociedade mantém sua “honra” intacta ao fingir que a tragédia não aconteceu, isolando a vítima em um exílio emocional dentro da própria vida.
A direção de Eva Victor é de uma precisão apurada. Ela não usa o luto para criar melodrama; ela usa o espaço e o silêncio para criar desconforto. As imagens são elegantes, mas transmitem uma frieza cortante. Vemos Agnes em quadros que reforçam sua solidão, enquanto o fundo é ocupado por uma multidão borrada e apressada. É um filme sobre o poder do esquecimento — o poder que a maioria exerce sobre aquele que está sofrendo.
A atuação de Eva Victor é sensacional. Ela consegue transmitir o esgotamento de quem tenta gritar em um ambiente sem som. Diferente de obras que buscam explosões emocionais, aqui a tensão evolui no silêncio, na passividade-agressiva daqueles que dizem “sinto muito” enquanto já estão olhando para o relógio. É uma interpretação que justifica plenamente suas indicações ao Independent Spirit Awards e ao Gotham Awards.
O roteiro, vencedor em Sundance, nos guia por um caminho de isolamento crescente até um desfecho inflamável. Não há aqui o conforto de um abraço coletivo. O filme termina deixando o espectador com um gosto amargo, típico das grandes obras de reflexão.
Saí do cinema com uma dúvida cruel: o filme de Eva Victor é um retrato fiel de que a nossa “honra” comunitária é apenas uma máscara para o egoísmo, ou a ideia era mostrar que o verdadeiro sonho de empatia é a maior fragilidade da nossa era? O final nos deixa suspensos, questionando se somos Agnes ou se somos aqueles que continuam a vida como se nada tivesse acontecido. Um filme necessário que ensina que o silêncio pode ser a arma mais cruel de todas.
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