(Atenção: este texto contém spoilers do livro ‘O Morro dos Ventos Uivantes’)
No início de setembro de 2025, o trailer do novo “O Morro dos Ventos Uivantes” gerou uma onda de debate na internet. Dirigido por Emerald Fennell (“Saltburn”) e com Jacob Elordi no papel de Heathcliff e Margot Robbie como Catherine, o filme prometia uma nova e provocante visão da obra clássica. No entanto, o trailer reacendeu uma antiga polêmica que divide os fãs há décadas: a escalação de um ator branco para o papel de um personagem descrito como cigano, sujo e de pele escura.
A análise é precisa: a aparência de Heathcliff não é um mero detalhe; ela é o cerne de sua angústia e da rejeição que ele sofre. A “branquetização” do personagem entra em conflito direto com as descrições de Emily Brontë e com a própria lógica do drama. O Drama no Divã trouxe só 3 dos milhares de motivos para provar essa clara divergência.
A descaracterização de Heathcliff na obra original
- “Um menino sujo, esfarrapado e de cabelos negros”: desde a sua primeira aparição, Heathcliff é descrito com a aparência de um excluído social. Nelly Dean, a narradora, o descreve no capítulo 4 como “um menino cigano, sujo, esfarrapado e de cabelos negros”. Essa descrição inicial estabelece que sua diferença física o marca como um forasteiro em Wuthering Heights e em Thrushcross Grange. A ausência dessas características no ator escolhido apaga a origem de sua rejeição e a base de seu ódio.
- Aparência como barreira para o amor: a própria voz de Heathcliff ecoa seu profundo complexo e a dor de não se encaixar. Em um momento de vulnerabilidade, ele confessa a Nelly que deseja ser “branco, loiro e bonito, para que eu possa me casar com a Catherine e para que as pessoas não me odeiem.” Essa fala é um dos trechos mais importantes para entender que sua aparência é a barreira que o impede de alcançar o que mais deseja, e não é algo que ele possa simplesmente superar com dinheiro ou poder.
- A marca de um “Selvagem”: a aparência de Heathcliff é constantemente ligada ao seu status social inferior e a uma natureza “não civilizada”. Quando ele retorna à Mansão da Cruzes, o narrador o descreve como um “selvagem” e um “bárbaro”. Essa conexão entre sua aparência e sua falta de refinamento era crucial na sociedade vitoriana e na crítica social da autora. Ao ignorar a aparência “escura” e “ciganizada” de Heathcliff, o filme dilui a crítica da autora sobre o preconceito de classe.
A obra O Morro dos Ventos Uivantes é inseparável de seu contexto de criação: a Era Vitoriana. O período, marcado pelo reinado da rainha Vitória, impunha um moralismo rigoroso e severas restrições sociais e comportamentais.
A abolição da escravidão na Inglaterra em 1833 dá uma camada crucial à história de Heathcliff. Esse marco histórico sugere que, se ele fosse descendente de escravos, não haveria tido tempo para construir um nome ou adquirir bens. É até mesmo plausível que tenha sido escravizado em sua infância.
Apesar da abolição, Emily Brontë opta por manter a origem do personagem no mistério. Ele é simplesmente trazido por Mr. Earnshaw após uma viagem a Liverpool, sem qualquer explicação.
Se Heathcliff guarda memórias de suas origens, ele escolhe não compartilhá-las. A autora deixa o leitor no escuro, permitindo que a sua história continue sendo um enigma que aprofunda sua posição de eterno forasteiro.




