A 36ª Bienal de São Paulo já tem data e conceito definidos, mas a grande notícia não é o evento em si, e sim a inspiração por trás dele: o poema “Da calma e do silêncio”, de Conceição Evaristo. Em um mundo que nos cobra velocidade, a escolha da Bienal por um texto tão profundo é um convite — ou um ultimato — para que a gente pare, respire e se olhe no espelho. E, se você ainda não teve a chance de ler essa obra, saiba: ela é o divã de que a gente precisa, independentemente de exposições.
Em um cenário onde a pressa é uma virtude e a pausa é vista como falha, o poema de Conceição Evaristo nos dá permissão para desacelerar. Ela nos diz para “mascar, rasgar entre os dentes, a pele, os ossos, o tutano do verbo”. Que maneira mais precisa de falar sobre a necessidade de processar a vida! Em vez de engolir informações sem digerir, a autora nos lembra que a verdadeira compreensão exige tempo, mastigação e até uma certa dor. É um processo de se apropriar do que é dito, de absorver a essência das coisas antes de tentar traduzi-las.
O poema é um antídoto contra a nossa obsessão pela produtividade e pelo movimento constante. A autora nos conforta ao dizer: “Quando meus pés abrandarem na marcha, por favor, não me forcem. Caminhar para quê? Deixem-me quedar, deixem-me quieta, na aparente inércia.” E que alívio ouvir isso! Ela nos mostra que o descanso não é uma falha, mas uma forma de viagem. Nem todos os caminhos são trilhados com os pés. A verdadeira jornada, muitas vezes, acontece dentro de nós, na quietude que nos permite mergulhar nas profundezas da nossa própria existência.
A Bienal acertou em cheio ao se inspirar na obra. Ela nos convida a entender que a vida é mais do que andar em linha reta e em alta velocidade. É sobre saber a hora de parar, de se ouvir, e de respeitar a sua própria calma. Portanto, a dica é simples: antes mesmo de pensar em visitar a Bienal, procure pelo poema de Conceição Evaristo. Leia-o com calma, e permita que a sua própria viagem interior comece. Afinal, a terapia que a gente tanto busca pode estar na quietude de alguns versos.




