Adentramos na fronteira entre a realidade e a fantasia do realismo fantástico de Murilo Rubião. A atuação de Chico Díaz emerge como um farol nessa paisagem onírica, carregando nos ombros a angústia palpável de um personagem aprisionado pelas engrenagens de um sistema opressor. Sua performance transcende convidando o espectador a sentir na própria pele o peso do cerceamento e da impotência que assombram a narrativa.
Ainda que a imersão visual seja inegável, impulsionada por uma fotografia de inegável qualidade, a experiência esbarra em inconsistências técnicas. A iluminação, em certos momentos cruciais, distancia o olhar dos figurantes, obscurecendo nuances que poderiam enriquecer a atmosfera da obra. Da mesma forma, a finalização de áudio se apresenta como um ponto frágil, comprometendo a nitidez da ambiência sonora e, por conseguinte, a completa absorção do espectador no universo diegético.
Contudo, essas imperfeições técnicas não diminuem o poder da atuação central, que se ergue como um pilar de sustentação da narrativa, guiando o público através das camadas de simbolismo e da crítica social subjacente.
A entrega de Chico Díaz é um convite irrecusável à reflexão sobre as amarras invisíveis que nos aprisionam e a urgência de vozes que clamam por liberdade. Apesar dos tropeços na iluminação e no áudio, o filme cumpre seu propósito de instigar o pensamento crítico e despertar a sensibilidade para as complexas dinâmicas do poder e da resistência em nosso tempo. Dar uma oportunidade a esta obra é, sobretudo, permitir-se ser tocado pela intensidade de uma atuação que pulsa com a verdade da angústia contemporânea.
Por Marcos Alessandro – diretor de cinema e teatro




