Ainda Não é Amanhã é um filme que pulsa em silêncio. Cru, sensível e desprovido de artifícios banais, ele se insere em um espaço raramente ocupado no cinema: o da escuta genuína da experiência feminina, sem o filtro das moralidades impostas pela religião ou pela sociedade.
Milena Times entrega um drama que não se apressa. A câmera, quase preguiçosa em seu ritmo, é cúmplice da história, não por descuido, mas por escolha estética. Ela observa de perto, sem intervenções dramáticas ou movimentos em excesso, criando uma atmosfera contemplativa que espelha o cotidiano das personagens.
O que torna o filme particularmente potente é sua recusa ao clichê. A gravidez da protagonista, por exemplo, não vem acompanhada de culpa exacerbada ou punição moral. O filme trata a escolha da mulher com respeito, abrindo espaço para diversos sentimentos, conflitos internos e afetos familiares que não se encaixam em fórmulas prontas.
Mayara Santos, como Janaína, é um presente. Ela carrega o filme com uma atuação profunda. Seus olhos, quase sempre calados, falam de dores, pressões e pequenas revoluções íntimas. As mudanças em sua postura, o modo como se relaciona com as outras mulheres da casa – mãe e avó – e as pausas carregadas de sentimento fazem o espectador se calar junto. Há momentos em que o filme parece parar no tempo, e é aí que ele mais diz.
Ainda Não é Amanhã é, portanto, um filme simples, mas cheio de camadas. Um retrato delicado da mulher periférica que sonha, escolhe e sofre sem precisar ser salva. Um lembrete de que o cinema também pode ser espaço de escuta.
Sinopse:
Janaína é uma jovem de dezoito anos que mora com a mãe e a avó em um conjunto habitacional na periferia do Recife. Ela é a primeira pessoa da família a entrar na universidade, mas uma gravidez indesejada ameaça os planos que ela havia traçado.




