Em uma história dramática com personagens enigmáticos e guinadas narrativas, Ayse Polat revela um universo repleto de camadas. Distante dos moldes tradicionais, Ponto Oculto, originalmente Im Toten Winkel, traz uma trama que se mistura com o formato documental.
Produzido em 2023, o longa começa mostrando um grupo de documentaristas germânicos que investigam o sumiço de um jovem em uma vila na Turquia. Porém, a história ganha profundidade quando o documentário se torna alvo de um grupo criminoso e Melek (Çağla Yurga), filha de Zafer (Ahmet Varlı), mostra suas peculiaridades. A menina de sete anos, é uma personagem intrigante, em que é preciso imergir na narrativa para entender o seu papel central na história.
Polat constrói o longa metragem de forma não linear e com uma ordem cronológica reversa. A produção alemã é como um quebra-cabeças, em que cada capítulo complementa o outro e acrescenta novos fatos à história. Característica responsável por capturar a atenção e o desejo de entender a trama, que seduz pelo seu mistério.
As lacunas que existem no filme dão margem para imaginação. A obra consegue a façanha de penetrar na mente de forma que é inevitável ao final, a tentativa de montar esse quebra-cabeça narrativo. A história é uma fusão de diversos temas que vão desde violência, memórias, segredos, xenofobia, atividade paranormal e repressão política.
A partir de três perspectivas, em que uma delas não se revela, Polat nos conduz, a princípio, de forma serena. Mas, a obra vai ganhando contornos mais sombrios, à medida que os pontos de vista se cruzam e o suspense começa a se manifestar. A cada retrocesso no tempo, a história vai ficando mais complexa e misteriosa.
Apesar de conter um fenômeno sobrenatural, que acompanha Melek, a obra não se concentra nisso. Porém, é esse aspecto que invade suavemente a narrativa e revela um trauma do passado que atravessa gerações. Ao final, é justamente esse “fantasma” que dá sustentação para toda a narrativa.
O filme é convidativo e sedutor. No início pode-se duvidar ou até subestimar o lugar em que a diretora quer nos levar, lugar esse improvável de se pensar, mas ao decorrer da obra, Polat nos prende aos personagens e ao ponto que está oculto. É nessa atmosfera obscura que o público precisa juntar as peças.
Sinopse
Ambientado no nordeste da Turquia, POV: Ponto de Vista acompanha uma equipe alemã de documentaristas, um agente envolvido em uma rede de vigilância e sua filha de sete anos, que parece enxergar o que os adultos não conseguem ver. Com uma estrutura dividida em capítulos e filmagens em diferentes formatos, o longa prende o espectador em um clima de tensão crescente, revelando um complexo emaranhado de conspiração, trauma e paranoia.
Por Maryelle Campos




