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Crítica| A Odisseia de Enéias: entre o luxo e o superficial

Produzido em 2023, A Odisseia de Enéias (Enea) chega no circuito comercial em 2025 após competir pelo Leone d’Oro, premiação máxima do Festival de Veneza. Com direção e atuação de um dos expoentes e nepobabys do cinema italiano, Pietro Castellitto, o longa-metragem que retrata parte do cotidiano de uma família rica em Roma, traz uma trama pincelada de reflexões sobre a vida.

Com início marcado pela dualidade que dá forma ao corpo da obra, o primeiro diálogo, já nos minutos iniciais, traz uma reflexão sobre a solidão e a união. Prefácio do que, por alguns, pode ser chamada de “jornada” de Enéias (Pietro Castellitto), um rico traficante de cocaína. Descrito como quem “persegue o mito que seu nome carrega”, definição dada pela sinopse original, Enéias, curiosamente, não é um herói e também não tem uma grande jornada. 

A narrativa, que não acompanha apenas Enéias, traz seu parceiro de vendas Valentino (Giorgio Quarzo Guarisco), sua mãe Marina (Chiara Noschese) e seu pai Celeste (Sergio Castellitto), que têm algumas de suas facetas subjetivas capturadas. Em uma teia entrelaçada por luxo, dinheiro, festas, futilidades, status social e performance, Castellitto aborda algumas das complexidades de existir com privilégios. 

Em seu significado mais genuíno, a vida por vezes não está acompanhada por um propósito ou sentido, é nessa ausência que o fútil ganha espaço na narrativa. É preciso acreditar que o que está por vir será capaz de prender no longa. No entanto, os pontos altos do filme se resumem a bizarrice de um cozinheiro doente e o suicídio de dois personagens da trama, o que, ironicamente, ocorre em circunstâncias glamurosas.  

A banalidade da vida de quem tem dinheiro e precisa sustentar uma máscara social é retratada, sobretudo nas trocas entre os personagens. Dentre um dos diálogos mais intensos está o desabafo de Marina com seu marido Celeste, na cama. Ela revela a infelicidade e contradição em suas vidas que aparentam ser perfeitas. De um psicanalista de crianças que têm problemas com os filhos a uma apresentadora que prega paz, mas sente ódio, de traficantes por diversão a cheirar cocaína na festa da igreja, o longa de Castellitto tenta captar as camadas de complexidade que formam a vida. 

Segundo filme na carreira do diretor, drama não é capaz de provocar comoção, já que mesmo trazendo fragmentos de subjetividades dos personagens, o filme se detém ao superficial, sem se aprofundar nas histórias. O foco central é a vida insossa de Enéias, um homem cercado por privilégios, o que consequentemente gera um grande obstáculo para identificação do público com a obra.  

Ao final, não dá pra dizer que o nome “A Odisseia de Enéias” faz jus ao enredo, a não ser pela aproximação com a obra de Homero, em que Ulisses termina sua jornada com seu casamento, mesma forma que o longa termina. Seria mais sensato deixar apenas como Enea, nome oficial, já que a tradução sugere e instala uma expectativa de epopeia que não se materializa na trama. Qual seria a aventura de Enéias? Qual é a  jornada de Enéias? 

Alimentado pela falta de sentido que ronda a existência humana, ainda mais quando está atrelada a privilégios, o filme retrata e captura o aspecto da insignificância no ato de viver.

Sinopse

Filho de uma família burguesa de Roma, Enea se diverte com seu amigo Valentino frequentando as festas mais exclusivas e vendendo drogas. Quando Enea acaba em um círculo maior de drogas, entende que pode contar com o amor de Eva.

Por Maryelle Campos  – jornalista

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Jornalista, dramaturga e Especialista em Políticas Públicas. Sussuca Alencar consolidou sua carreira em grandes potências da comunicação brasileira, com passagens pelo SBT, G1, rádio Centro América FM e atuação no grupo Globo. Com uma visão estratégica que defende a cultura como um negócio rentável e essencial para a economia criativa, ela fundou o Drama de Honra, plataforma que une curadoria artística e viabilidade comercial com foco na cultura feminina.

Sua expertise transita entre a gestão de projetos culturais e a cobertura de grandes eventos, como a SPFW, onde colaborou com marcas líderes de moda e beleza. Atualmente produtora de TV, podcaster e gerente de projetos, Sussuca utiliza sua bagagem como ex-atriz e dramaturga para criar narrativas que conectam marcas a audiências qualificadas. Como heavy user de redes sociais, ela domina a comunicação multiplataforma, transformando o entretenimento em uma ferramenta poderosa de investimento e impacto social.

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