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ELOÁ PIMENTA: uma conversa franca sobre arte e o sonho de fazer novela 

Aos 51 anos, a atriz, coralista e palhaça mato-grossense, com um currículo de 2 longas, 28 curtas e experiência como preparadora de elenco, reflete sobre a arte e a coragem de ser inteira fora do eixo Rio-SP.

Aos 51 anos, Eloá Pimenta é uma força cênica em movimento contínuo. Sua trajetória emana uma energia que a transformou em uma artista multifacetada: atriz, cantora, coralista, palhaça, dubladora e até preparadora de elenco. Formada também em cinema e desenvolvimento humano, ela acumula um currículo impressionante no audiovisual, incluindo 2 longas-metragens, 28 curtas, 1 série e 10 webséries.

Nascida em Cuiabá, Eloá equilibra a força do palco — onde domina a comédia, o drama e os musicais — com a precisão íntima da câmera. Seu nome ganhou destaque em produções premiadas, como o longa-metragem do diretor Bruno Bini que conquistou o Kikito de Ouro, onde dividiu a cena com estrelas como Bella Campos e Xamã.

Para Eloá, a arte não é apenas entretenimento, mas sim um campo de debate. Ela é categórica: “Pra mim, arte sem verdade não serve,” afirma. A atriz busca trabalhos que tenham substância e que sejam capazes de provocar o público, fazendo com que ele reflita sobre a realidade. Seu objetivo é claro: usar a arte para gerar conversas e transformar, e não apenas para reproduzir o que já se conhece.

Em entrevista exclusiva à TAG, a atriz abriu o jogo sobre sua carreira fora do eixo Rio-SP, as cenas do filme premiado do Bruno Bini. Na conversa franca, ela detalhou a luta diária pela arte, o orgulho de fazer cinema em Mato Grosso, aplaudiu e criticou o sucesso tardio de atrizes e disse estar preparada para fazer novelas.

Entrevista completa

DH O que o palco em Cuiabá te dá que o cinema não dá?

E Olha, os dois fazem conexão comigo — só que de jeitos diferentes. Minha entrega é a mesma nos dois, sempre. O que muda é o grau de responsabilidade, e vou te explicar por quê: no teatro, a responsabilidade é de presença — é tudo ao vivo, sem volta, sem corte. A gente respira junto com o público, e qualquer detalhe muda o ritmo da cena. Já no audiovisual, a responsabilidade é de precisão. Cada gesto, cada olhar, cada pausa fica registrado pra sempre. O trabalho passa pela mão de muita gente — edição, som, fotografia — e tudo aparece na tela. No palco, vejo o resultado na hora. No cinema, vejo depois, com todas as camadas de tratamento que constroem aquela emoção. Cada um tem sua beleza, e os dois me completam.

DH Sua arte sempre fala de temas fortes. Arte pra você é debate?

E Pra mim, arte sem verdade não serve. Eu gosto de cutucar, de provocar conversa, de fazer a pessoa sair do teatro diferente de como entrou. Não quero ser panfletária, mas também não quero fazer “nada com nada”. Quero que o trabalho tenha carne.

DH E ser artista fora do eixo Rio–SP?

E No começo foi difícil de entender e me encontrar no mercado. Mas tem uma história aí: quando eu decidi encarar de verdade a carreira de atriz, achei que só o “jeito pra coisa” bastava. Fui direto pro Rio achando que ia chegar chegando… e lá eu levei um choque de realidade. Vi que eu ainda tinha que estudar muito, me preparar, entender técnica, linguagem, ritmo. E eu estudei — estudei muito — e fiz arte por lá também. Quando voltei pra minha terra, voltei cheia de vontade, com outra cabeça, com fome de aprender e de fazer. E aí eu percebi uma coisa linda: aqui tem espaço, sim. Tem artista gigante, tem gente talentosa demais, tem mestres que me ensinaram tanto quanto aprendi no eixo. É trabalhoso, é uma luta diária, mas é meu lugar. Aqui eu sou inteira. Aqui eu crio, aqui eu aconteço. E, acima de tudo, aqui eu tenho orgulho de estar.

DH O que você preservou da Eloá do começo?

E A fome. Eu era cheia de vontade, de mergulho, de aprender tudo. E isso nunca passou. Eu posso ter mudado como artista, mas essa fome continua aqui — viva.

DH Ao fazer cinema com Bruno Bini, o que você teve que desaprender do teatro?

E Que eu não precisava preencher o mundo inteiro (risos). No cinema tudo é mais íntimo. O olhar e o silêncio fala. Foi um processo de confiança: respirar, diminuir, deixar a câmera revelar o personagem.

DH E levar MT pra Gramado?

E Foi emocionante demais. Me deu orgulho e responsabilidade ao mesmo tempo. Acredito que muitas portas vão se abrir para Cinema e Audiovisual em Mato Grosso. Me deu vontade de gritar: “Mato Grosso faz cinema de qualidade! A gente existe, viu?!”.

DH Algum momento marcante com Bella Campos ou Xamã?

E Sim. A Bella disse ao diretor: Que fofura de pessoa! E disse que lembrava as tias dela, e quando me encontrou na festa de encerramento, beijou minha mão como se tivesse pedido a benção! E o Xamã, super simples, conversando comigo sobre a diversidade cultural que o Brasil. Eu fiquei de ensiná-lo a dançar o rasqueado, mas ficamos no Rap mesmo.

DH Sobre o fenômeno Tânia Maria: vitória ou denúncia?

E As duas coisas. É lindo ver uma mulher de mais de 70 brilhando, mas também é um tapa na cara: olha quantas já deveriam estar aí e não estão. Isso escancara uma ferida antiga. Inclusive eu comecei a carreira aos 30 anos e hoje aos 51 anos me preparada pra testes para novos filmes e novela, qual ainda não tive esse experiência!

DH Próximos trabalhos?

E Em breve volto ao teatro com um projeto que amo. Fizemos um ensaio aberto da peça nas Satyrianas para sentir onde estamos e como o público reage. Nos próximos meses, vou me dedicar a estudar mais atuação para o audiovisual e estou aberta a convites e testes para filmes e novelas.

DH Quando recebe um texto, por onde começar?

E Eu começo sentindo. Leio quietinha, deixo a personagem me visitar. Depois vem a parte técnica. Mas no fim é uma mistura: cabeça e coração, sempre.

DH O que espera da próxima década?

E Quero mais sets, mais diretores, mais histórias diferentes e personagens que me desafiem. Estou sempre fazendo teatro e audiovisual. Ah! Este ano fiz dublagem pra desenho animado: Flori e Fluto de Perseu Azul. Foi uma experiência surpreendente pra mim!

DH Acredita em signo?

E Acredito sim! Eu sou de Áries, com lua em Capricórnio e ascendente em Aquário — ou seja, uma mistura bem intensa (risos). Tenho o fogo de Áries pra começar tudo, a disciplina da lua em Capricórnio pra dar conta do tranco e esse lado mais livre, inventivo e inquieto do ascendente em Aquário. É uma combinação que me move o tempo inteiro.

DH Atriz referência máxima?

E Zezé Motta. Pela força, pela história, pela elegância e pela coragem de abrir portas onde antes ninguém abria. Este ano assisti à peça Vou Fazer de Mim um Mundo, com Zezé Motta, e ela estava impecável — presença vibrante, canções maravilhosas de sua autoria, pura paixão em cena. E, para completar, tive o privilégio de contracenar com Zezé no filme Mãe Bonifácia, de Perseu Azul, com direção de Sales Fernandes. Uma experiência que levarei pra sempre.

DH Música que te define?

E “Força Estranha”, do Caetano. Essa música me pega fundo… fala de seguir, de insistir, de se reconhecer na própria caminhada.

DH Livro preferido?

E “Grande Sertão: Veredas”. É um livro que me atravessa porque cada página é uma mistura de linguagem, de emoção e de humanidade. Eu mergulho no mistério, na poesia e na força das palavras de Guimarães Rosa. É um livro que não se explica: se vive.

DH Prato que define Mato Grosso?

E Não tem como escolher só um prato que defina Mato Grosso. Nossa cozinha é muita mistura boa pra caber num único sabor. Maria Izabel, Farofa de Banana, Mojica de Pintado, Cabeça de Pacu… cada um representa um pedaço da nossa história. Juntos, eles contam quem a gente é. Tem a lenda que quem come Cabeça de Pacu não sai mais de Cuiabá.

DH Sua mensagem pro público?

E Olha, se tem uma coisa que eu aprendi nesses anos todos é que ator não pode parar — nem de estudar, nem de atuar. Pra mim, ator é igual atleta: se para de treinar, perde ritmo, perde precisão, perde até a escuta. Então minha mensagem é essa: continuem em movimento. Leiam, estudem, observem, se arrisquem. A arte não aceita estagnação. E quando a gente se mantém em prática, tudo flui — o trabalho, a criatividade e até a coragem. Minha mensagem final é: “Sonhar é o primeiro passo. Mas o que me move é simples: coragem pra seguir, fé pra respirar e estudo pra estar pronta quando a porta abrir.”

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