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O continuar fazer música: a poética da sobrevivência de “Novos Tempos” de Claudia Amorim

Há uma urgência silenciosa que atravessa o novo trabalho musical “Novos Tempos” de Claudia Amorim. Não se trata apenas de mais um registro na vasta e respeitada trajetória de uma intérprete que já cruzou a marca de duas décadas e meia dedicadas à música popular brasileira; é, antes de tudo, um manifesto estético sobre o que resta quando o mundo ao redor desaba. Com um olhar que equilibra a crudeza dos tempos contemporâneos e o lirismo intemporal da canção, a artista carioca condensa sua maturidade em um projeto moldado pelo conceito da permanência e do afeto.

Claudia reconta a percepção de que, diante de extremos, sejam as fraturas climáticas, as guerras iminentes ou as ameaças atômicas que assombram o imaginário global, e o que sobra é o afeto. A narrativa visual idealizada por Claudia contrapõe a dor de um coração sangrando à delicada resiliência de sobreviventes e de uma flor de algodão, símbolo máximo da semente que germinará o amanhã.

Não por acaso, a releitura da clássica “Sal da Terra”, de Beto Guedes e Ronaldo Bastos, surge como o eixo que amarra todo esse ecossistema conceitual. Há uma crudeza minimalista evidente, que bebe diretamente da fonte cortante de projetos como o grupo Metá Metá e do histórico e percussivo álbum Olho de Peixe, lançado nos anos 1990 por Lenine e Marcos Suzano.

O repertório se abre com a inédita “Musa Música”, uma delicada joia dada de presente à Claudia por seu parceiro de longa data, Ricardo Magno. Mais adiante, a intérprete mergulha no lirismo cinematográfico de Chico Buarque com “Cidade dos Artistas” (versão para a peça Os Saltimbancos) e faz uma travessia transatlântica ao resgatar “Perdidamente”, fado imortalizado pelo grupo português Trovante que verte em música a poesia profunda de Florbela Espanca.

Sob a cuidadosa preparação vocal de Ana Priscila Lacerda, Claudia Amorim não se esquiva de arriscar. Explora novas texturas, experimenta dinâmicas distintas de emissão e se entrega à crudeza que as faixas exigem.

É, com toda certeza, o disco da minha maturidade“, define a artista. Em tempos de conexões líquidas e paisagens áridas, Claudia Amorim nos lembra de que o amor não é um refúgio passivo, mas a ferramenta mais revolucionária de sobrevivência. Um álbum que ainda tem “Pra onde foi o amor”; “Simpleza”; “Musa música”; “Capuava”; “Desperto de você”; “Mi Palomo”; “Perdidamente” e “anjo Santificado”.

A menor das faixas”A cidade dos artistas” é regravação da versão em português feita por Chico Buarque (1981), originalmente composta pela dupla italiana Luiz Enriquez Bacalov e Sergio Bardotti.

EM TEMPOS TÃO CORRIDOS, OUVIR “NOVOS TEMPOS” É PAUSA NECESSÁRIA DO DIA!

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