Do Sul: A Vingança surge como uma grata surpresa do cinema regional do Centro-Oeste, tecendo uma narrativa que equilibra familiaridade e estranhamento. A inteligente incorporação de dialetos e piadas locais não apenas ressoa com o público da região, mas também planta a semente da curiosidade em quem observa de fora da região. A ficção abraça a sátira das poesias e lendas da fronteira, transformando a experiência em uma contação de histórias envolvente que prende a atenção pela sua autenticidade.
Um dos grandes acertos da produção reside na sua abordagem dos efeitos de forma exagerada e assumidamente divertida, quase que piscando para o espectador sobre a natureza ilusória da tela. Essa metalinguagem sutil adiciona uma camada extra de apreciação, convidando o público a participar da brincadeira cinematográfica.
A atuação de Febem (Bruno Moser) merece destaque especial, injetando uma dinâmica particularmente atrativa à trama. Sua presença em cena eleva o ritmo e o interesse, contribuindo significativamente para a atmosfera singular do filme. A busca pelo misterioso “Jacaré” se torna um fio condutor instigante, que inevitavelmente evoca reflexões sobre a complexa realidade das fronteiras brasileiras.
Do Sul: A Vingança prova que o regional pode e deve encontrar seu espaço, oferecendo uma experiência cinematográfica genuína e cativante. Ao valorizar a identidade local com inteligência e ousadia estética, o filme não apenas diverte, mas também convida a uma imersão em um universo cultural rico e peculiar, deixando no ar a persistente questão: afinal, quem é Jacaré?
A divertida provocação entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, habilmente inserida na narrativa, ressoa de forma especial no coração cuiabano. Para nós, mato-grossenses, essa brincadeira é parte do nosso dia a dia, e vê-la ganhar vida no cinema, com a pitada de exagero cômico do filme, é um deleite à parte. É como se a tela capturasse um aspecto genuíno da nossa cultura, temperado com a irreverência que tanto apreciamos.
Sinopse
Em busca de material para seu novo livro, o escritor Lauriano parte para a conturbada fronteira entre Mato Grosso do Sul, Paraguai e Bolívia, onde o crime organizado dita suas próprias leis, em busca de um “Jacaré”. O que começa como uma simples investigação se transforma em uma jornada inesperada, repleta de ação, conflitos e personagens excêntricos. Em meio ao caos de uma vastidão silenciosa e cheia de contrastes, Lauriano mergulha em uma trama tão perigosa quanto cômica — onde sobreviver é o seu maior desafio.
Por Sussuca Alencar – jornalista e dramaturga




