Anne Fontaine dirige uma cinebiografia que foge do óbvio para filmar o nascimento de uma obsessão sonora.
O que acontece quando a honra de um artista se funde à sua obsessão por um único ritmo? Em BOLERO, a diretora Anne Fontaine mergulha na vida de Maurice Ravel (Raphaël Personnaz) para mostrar que a criação artística é uma “gangorra” perigosa entre o gênio e a loucura. Ambientado na Paris dos anos 1920, o filme foca no desafio monumental de Ravel: compor a trilha para o balé de Ida Rubinstein (Jeanne Balibar), uma encomenda que se transformaria em sua obra mais famosa e, paradoxalmente, em seu maior tormento.
O filme retrata a integridade de Ravel perante a arte. Ele não busca apenas uma melodia; ele busca a repetição hipnótica, o controle absoluto do som. Fontaine utiliza uma narrativa que nos seduz pela elegância da época para depois nos chocar com o desgaste físico e mental de um homem que vê sua honra criativa ser consumida por uma melodia que não o deixa dormir.
As imagens são sofisticadas, capturando a Paris vibrante, mas o foco permanece no isolamento de Ravel.A atuação de Raphaël Personnaz é sensacional. A química entre ele e as mulheres de sua vida — Ida Rubinstein e sua colaboradora Cipa Godebska — funciona como o contraponto necessário para o seu isolamento criativo, mostrando que, para Ravel, a honra estava na entrega total ao compasso.
Bolero é como uma bebida ardente que começa suave e termina com uma intensidade avassaladora, deixando o espectador com o eco da melodia gravado na alma.
Saí do cinema em uma dúvida cruel: o filme de Anne Fontaine celebra o gênio de Ravel ou é um alerta sobre como a honra artística pode se tornar uma prisão? A ideia era mostrar que o sucesso é o falso sonho que esconde o sofrimento do autor?
Um filme belo, rítmico e profundamente melancólico.
BOLERO: A MELODIA ETERNA (Bolero) chega aos cinemas dia 17 de abril de 2025, com distribuição da Mares Filmes.




