O filme estreou na Competição Oficial do Festival de Berlim em 2025. E hoje (28), nos cinema do Brasil
Por Giovana Sedano
“O Último Azul” mergulha o espectador em uma distopia silenciosa, mas profundamente simbólica, ao imaginar um Brasil onde o envelhecimento é transformado em sentença social. Gabriel Mascaro constrói esse futuro sombrio com delicadeza, sem recorrer a exageros visuais ou narrativos. O ponto de partida, que é a obrigatoriedade de idosos acima de 75 anos se mudarem para a Colônia, revela-se um potente retrato de um Estado que ignora o valor da experiência e do envelhecimento. Tereza, interpretada com imensa sensibilidade por Denise Weinberg, desafia essa imposição não com força bruta, mas com vontade de existir por completo.
A escolha da Amazônia como cenário não é aleatória: a natureza viva e abundante contrasta com a tentativa de imposição de uma morte simbólica. A câmera observa Tereza como se ela mesma fosse parte daquele ecossistema, uma mulher em movimento, pulsante, que não aceita a ideia de ser reduzida à sua idade. Há uma fusão quase poética entre corpo e floresta, entre resistência e tempo. A fotografia e o som ambiente colaboram para essa imersão sensorial, fazendo o espectador sentir a umidade, os sons e a vastidão daquele espaço que, ao contrário da Colônia, acolhe a vida em suas múltiplas formas.
Mascaro também acerta ao tratar o envelhecer como processo contínuo de descoberta, e não de encerramento. Ao longo da jornada fluvial, Tereza não apenas busca manter sua liberdade, mas também se permite sonhar. Há no filme um subtexto poderoso sobre redescobrir desejos, explorar novos vínculos e imaginar formas de afeto que não dependem de passado, convenções ou geografia.
No fim, “O Último Azul”, estrelado por Denise Weinberg, 69, e Rodrigo Santoro, 50 é menos um alerta político e mais uma poesia à persistência de ser. A crítica ao etarismo se entrelaça com uma celebração da autonomia. A distopia construída é assustadoramente crível, mas é pela força delicada de Tereza que o filme se sustenta como um sopro de esperança. Não há aqui redenção ou final feliz garantido, pois o final é feito nas entrelinhas, o que há é a recusa em aceitar que a vida tenha prazo de validade.
Adanilo e a atriz cubana Miriam Socarrás também estão no elenco.
Sinopse :
Tereza tem 77 anos, mora numa cidade industrializada na Amazônia e é convocada oficialmente pelo governo a se mudar para uma colônia habitacional compulsória. Lá, os idosos “desfrutam” de seus últimos anos de vida, enquanto a juventude produtiva do país trabalha sem se preocupar com os mais velhos. Antes do exílio forçado, ela embarca numa jornada pelos rios e afluentes da região para realizar um último desejo, algo que pode mudar seu rumo para sempre.
ELENCO PRINCIPAL
Denise Weinberg (Tereza), Rodrigo Santoro (Cadu), Miriam Socarrás (Roberta) e Adanilo (Ludemir)




