Verônica Gentilin e a poética da imobilidade em Poema Suspenso para uma Cidade em Queda
Em uma época atravessada pelo excesso de estímulos e pela pressa contemporânea, o silêncio da paralisia ganha contornos poéticos na cena teatral paulistana. No mais recente episódio do Drama Talks, quadro oficial de entrevistas do portal Drama de Honra, recebemos a dramaturga e atriz Verônica Gentilin, integrante fundadora da Cia. Mungunzá de Teatro, para uma reflexão profunda sobre a temporada de Poema Suspenso para uma Cidade em Queda, em cartaz no Complexo Cultural Funarte SP.
A obra, que já impactou milhares de espectadores desde sua estreia, constrói uma metáfora cortante sobre o estado de suspensão humana: o que acontece com as vidas contidas em um edifício quando uma pessoa cai do topo e o tempo congela antes do impacto com o chão? A partir desse ponto de partida surreal e intimista, Verônica conduz a dramaturgia final do espetáculo unindo as memórias vivas do elenco em uma estrutura fragmentada e profundamente conectada com a psique moderna.
A dramaturgia da presença e os nichos do existir
Assinando a finalização dramatúrgica do espetáculo, Verônica Gentilin compartilha no episódio como o processo criativo da Cia. Mungunzá desafia as estruturas convencionais do fazer teatral. Sob a direção de Luiz Fernando Marques (Lubi), o grupo ergueu no palco uma estrutura de andaimes de cinco metros, onde cada ator ocupa um nicho independente — uma alegoria visual clara dos apartamentos e do isolamento em sociedade.
“Construímos o texto em conjunto, com base em histórias reais do elenco. Em cada um desses apartamentos, algo acontece sem que os atores vejam o todo. Somente o público enxergará a cena de maneira integrada, como quem monta um quebra-cabeça,” revela Verônica.
O olhar de Verônica ressalta uma dimensão fundamental da subjetividade feminina na arte: a capacidade de transformar a experiência sensível em arquitetura dramática. Cada compartimento da cena torna-se um espelho dos buracos negros pessoais que atravessamos, revelando como a sensação de estar “prestes a mudar” muitas vezes nos aprisiona em ciclos repetitivos.
Imobilidade, metáfora e o protagonismo no invisível
Durante a conversa com o portal Drama de Honra, a artista analisa o sentimento de suspensão como um diagnóstico da contemporaneidade. “Estamos sempre na expectativa de uma grande revolução interna ou social, mas vivemos retidos numa imobilidade sutil. O espetáculo retrata justamente essa paralisia onde o tempo passa, mas a ação não se concretiza,” reflete a dramaturga.
Ao abordar a trajetória independente da Cia. Mungunzá e a relação do grupo com o território cultural de São Paulo, a entrevista evidencia a força da permanência artística. Em um cenário em que o teatro de grupo enfrenta constantes desafios de manutenção e espaço, a reestreia do espetáculo reafirma a urgência de manter vivos os diálogos que provocam fissuras na rotina da metrópole.
O áudio completo do encontro já está disponível no Spotify e nas principais plataformas digitais. Acompanhe a conversa na íntegra para imergir nos bastidores dessa fábula contemporânea sobre memória, tempo e a coragem de olhar para o que permanece suspenso.
Ficha Técnica do Episódio
- Entrevistada: Verônica Gentilin
- Obra em Pauta: Poema Suspenso para uma Cidade em Queda (Cia. Mungunzá de Teatro)
- Apresentação e Mídia: Drama Talks / Portal Drama de Honra
- Eixo Estratégico: Cultura, Eventos e Negócios sob a ótica do protagonismo feminino e da produção independente
- Ouça agora: Episódio no Spotify



